Avançar para o conteúdo principal

Movimento perpétuo

 


A revolta interior estonteante e em brasa empunhou a espada ao alto

E preparou-se para debitar um discurso numa imprecação

Ficou decidido que não obedeceria nem a reis nem a imperadores

E muito menos a medíocres saídos da lama subalternos estupores

 

A insurreição assinou um pacto invisível com o conflito

Mesmo de logística ausente sem armas e instrumentos de arremesso

E vestindo-se de coragem planeou convicta submergir nas entranhas

Viscosas e fedorentas do cérebro humano sem oxigénio

 

Qual cirurgiã alucinada mudar-lhe-ia a estrutura os compartimentos

E na massa mole inventaria circuitos novos por sinapses cintilantes

Para traçar mapas tatuados à prova de amnésia nos cornos das bestas

Ultrapassando topologias agrestes vertiginosas e incongruentes

 

A sedição associou-se às mágoas com mossas profundas no coração

E determinada construiu atualizados canais de comunicação

Edificando galerias e programando estímulos no homem indolente

Abanando neurónios provocando-lhe o acordar

Do horror da aceitação indiferente dos mortos vivos da alienação

 

A sábia rebelião sabia que cada pedra da calçada

Faz parte de um trabalho de esforço gigante

Transforma-se num ápice em arma contundente

Tal como os escorpiões que se alojam discretos em interstícios invisíveis

Para lançar a ferroada ao que dorme desprevenido num instante

 

O pai do conflito determina que as folhas tombem

Para outras nascerem perpetuando a árvore

Cada homem na sua passagem pelo mundo visível nasce e morre

Para que o ciclo perpétuo do renascimento se propague

No abraço poderoso e efervescente da entidade que acolhe

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

Resistir

  Foto: José Lorvão A minha própria voz soa-me a desgaste Não sou eu! Apenas um molde das marés Um retrocesso mascarado num “déjà-vu” Embrenhei-me no fluído de imprecisão ondulatório E deixei-me conduzir pela corrente magnética Controladora de pânico por entre o enredo sufocante Num ambulatório cortante e desconcertado A caneta apresenta-se agora nestes dias de ausências Arremesso pesado estranho e ignorado   O azul claro do céu temporário tornou-se por instantes o meu alimento E as árvores! Sempre as árvores companheiras de partilha De trilhos sonoridades e gustações atenuando as dores do inferno Perante a dança ininterrupta dos pássaros E o sol que me aquece e aconchega neste final de novembro Põe a descoberto igualmente toda a beleza e fealdade No retorno ameaçador da pandemia com a invasão do Inverno   A mãe natureza assume a zanga e provoca ameaçadora Tempestades e inundações, explosões vulcânicas Lembrando ao convencido que ...

O odor da causticidade

  Foto: José Lorvão   O aroma agonizante do vinagre lança dardos cortantes na pele desprevenida Na visão angustiante da carne das mãos, mirrada e carcomida pela acidez da indiferença Lutam as formigas por comida escondendo-se nas ervas daninhas invadindo palácios As portadas entreabertas, sem receio de assaltos pois que nada existe de riqueza E o abismo espreita sobre a escadaria de uma biblioteca inventada No deslizar de um crocodilo de boca aberta e esfomeada     Os pés descalços da princesa esmorecida sem vontade de se rebelar Provocam o colapso das veias na palpitação das unhas rasgadas Contra as vidraças ocultas e estilhaçadas do assalto iminente Esvoaçam os passos de fantasmas num piso de silencioso abandono Velando o pranto sufocante do inocente   A claustrofobia esgarça um espaço reduzido imitador do céu Com gradeamentos a ouro suspensos pela agonia E a esperança arcaica e carcomida de que a morte Será rápida como relâ...