Avançar para o conteúdo principal

A cuspidela

 

 

O camelo do novo mundo cospe sobre a criatura que o enfrenta

E espicaça no silêncio gélido de energias transitórias

Julgando que é uma afronta e ameaça

Mas o ser que o observa mantém apenas a boca calada

 

O mamífero ruminante mastiga o alimento e prolonga o processo

Regurgitando as teorias e preconceitos

E em todos descaradamente o majestoso põe defeitos

 

Animal de carga que não consegue disfarçar o seu aborrecimento

Do alto do penhasco analisa as criaturas restantes no amontoado da carneirada

Convicto que as fezes também podem transformar-se acionando outras alquimias

E fazer do desperdício um autêntico alimento gerador de folias

 

Então explode em gestos de irritabilidade

Uma chamada de alerta para a sua presença

E para a sua delicada crença

Então a cuspidela fedorenta

Voa e cai certeira no alvo

Pois que a imagem provocadora o atormenta

E em mudez cortante e acusatória o enfrenta

Espertalhão e não burro de carga

Recusa-se ao transporte

É inteligente e astuto

De quem nunca perde o norte.

 

Pachorrento refugia-se na sua lentidão

Engana a comunidade de camelos permanecendo dócil e simpático

Mas o cuspidor irrita-se com os pormenores no campo de visão

Com quem não lhe faz vénia em jeito de escrava vassalagem

E não tem a mínima paciência para quem não lhe presta atenção

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

O odor da causticidade

  Foto: José Lorvão   O aroma agonizante do vinagre lança dardos cortantes na pele desprevenida Na visão angustiante da carne das mãos, mirrada e carcomida pela acidez da indiferença Lutam as formigas por comida escondendo-se nas ervas daninhas invadindo palácios As portadas entreabertas, sem receio de assaltos pois que nada existe de riqueza E o abismo espreita sobre a escadaria de uma biblioteca inventada No deslizar de um crocodilo de boca aberta e esfomeada     Os pés descalços da princesa esmorecida sem vontade de se rebelar Provocam o colapso das veias na palpitação das unhas rasgadas Contra as vidraças ocultas e estilhaçadas do assalto iminente Esvoaçam os passos de fantasmas num piso de silencioso abandono Velando o pranto sufocante do inocente   A claustrofobia esgarça um espaço reduzido imitador do céu Com gradeamentos a ouro suspensos pela agonia E a esperança arcaica e carcomida de que a morte Será rápida como relâ...

Amanhã, hoje não!

  Foto José Lorvão Amanhã abraçamo-nos! Hoje não porque a derrocada que me prende ao chão incute-me no rosto um mar tenebroso incapaz de se acalmar Como se a fúria de várias tempestades criasse um furacão arrasador de gestos humanos Desmembrando rasgando cortando esmagando numa conjetura há muito anunciada Falam e não ouço pois na situação-limite decidem quem vive e quem morre num estalar de dedos Em surdina permaneço hirta qual estátua que parou no tempo E num espaço em colapso fico esperando que o musgo e os fungos me inundem em ferrugentos degredos Amanhã beijamo-nos! Hoje não porque este Abril trajado de rutura e afastamento sem rumo nem aprumo Fecha-se na robótica gritante e magro sustento Abril clausura que alteia sangrento o encerramento de uma inevitável sutura E quando a energia se esgota pela indiferença de quem nos encerra impiedosamente a porta Enterra-nos em cubos de gelo de amargura Amanhã dançaremos! Hoje não porque fazem...