Avançar para o conteúdo principal

Alentejo

 



 

Alentejo que me vigias os passos

Me trespassas o coração

Me confundes com a coragem ou cobardia

A rebeldia ou o perdão

 

Alentejo da infância irreverente e descalça

Na calçada escaldante onde a estranheza do ser se esconde

Calor abrasador que me queima a pele

Convidando às brincadeiras na velha barragem

Chapinhando no lago sagrado a suavizar a quente aragem

 

Alentejo da calma que se torna palco das vozes genuínas

Das gentes com ligação à terra salpicada de canchos e lajedos

Impregnações castelhanas onde as fronteiras se esbatem

E as palavras se confundem na boca dos povos irmãos partilhando dores e segredos

 

Alentejo testemunha das lágrimas que lavam o rosto de suor e tristeza

Que luta na solidão dos menires hirtos em direção ao sol e às estrelas

Como se mantivessem o poder de fertilizar a terra

E colocassem as crianças felizes sem carências a dançar com elas

Por entre as antas que pululam pelo traçado da planície

Sepulturas que homenageiam os vivos e os mortos

Numa necessidade ancestral de comunicação intemporal

 

E deixo-me invadir pelo ritual derramando água disfarçando a angústia

Sobre a laje das campas dos entes queridos

Como se este elemento insípido inodoro incolor

Se tornasse o canal de ligação entre a luz e as trevas

Ao escorrer lentamente para o solo enquanto o tempo se baralha

E os que outrora cantavam desprendem-se das sebes erguidas pelo pavor

E noutra extensão se espraiam em incomensurável transmutação  

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

Equilíbrio

  Procuro equilíbrio no bico do prego revestido de ferrugem Perante as vergastadas invisíveis que me dilaceram A amígdala sobrecarregada com a invasão dos répteis Abrem-se os instintos escorrendo a ansiedade do corte Ondulando a depressão incontrolável massacrada pela visão da morte   Há um bloqueio em forma de choque que me trespassa a alma O respirar mecânico arrasta consigo os desgostos Enfeitados pela indiferença de quem perdeu a capacidade de sentir empatia Disfarçam-se os maus-tratos a hora certa Num trabalho austero em que a porta de saída está sempre aberta   A dubiedade é irmã gémea da falência A inquietação e esmorecimento acumulam-se Perante o cenário acabrunhado e cinzento onde floresce a indecência   O rebaixamento é executado com a frieza A depreciação provém do fundo do poço Onde as algas esfomeadas desejam o estrelato E as trepadeiras se enrolam aos nossos pés desejando a queda Em abalroamento do corpo e espír...

Máscaras de dor

  Foto: José Lorvão   As mãos vibram como prolongamentos de um corpo insaciado Mondam as ervas que teimosamente atapetam o solo húmido  Das chuvas tristonhas de início de Outono Enquanto os humanos acariciam o medo sem glória nem trono   Em agachamento as pernas procuram o equilíbrio Sobre o odor das raízes das ervas daninhas Fixando segredos da vida na profundidade da escuridão  As costas dobram-se em vénia como que adorando o solo E sob o sol e o calor do estio contaminador de suores A dor sobrevém contorcionista exposta num trapézio instável Dissolvendo o rosto irreconhecível nesta movimentação   O semblante dilui-se na secura abafada dos dias Enquanto a respiração acelerada No esforço de cavar a terra desmaiada pelo abandono Lado a lado com a mudez humilhada Em sonoridades múltiplas criando renovadas vastezas Rebelando-se a criatura contra a escravatura disfarçada   A máscara permanece apertada contra o nariz...