Avançar para o conteúdo principal

Embarcação




Vibro na inquietação das unhas esgarçadas de quem boceja sem vintém
No colapso vertiginoso da vida num inconstante salto à vara
Que para não definhar empreende as correrias do desastre e nunca se detém

A embarcação é una como um emaranhado de tentáculos de informação
Em que não há fronteiras nem muralhas nem canais de laqueação
Pois os caminhos retornam sempre à matriz da engenharia embrionária
Açoitada pelas galerias de fogo que esfriam petrificando o ovo
Na temporalidade prisioneira de dissimulação da fama
Que se dilui na poça de água colada ao pesadelo debaixo da cama

No entrançado das janelas do corpo dilatado e sangrando
Espreita-se o branco puro de outros aranhiços
Marchando em carris de lava vertendo-se no mar revolto
Em múltiplas flutuações de dinamismos cortantes
Na amalgama leitosa e gelatinosa de seres rastejantes

Porque tudo o resto no coração da Terra anda à mercê da obscuridade
Nos esconderijos dos bolsos cravejados de tesouros espoliados
Perante cenários denunciadores de cérebros desajustados
Onde os peixes desmaiam nas margens dos lamaçais ácidos
E na evaporação vertiginosa dos charcos sulcados pelos cágados
Anunciadores das catástrofes enquanto madrastas se enfeitam
E de revolta em gritos guturais choram as desgostosas mães
De mãos rugosas de sequidão filhas do acaso ainda têm força
Para delinearem as arquiteturas caóticas de um delírio
Provocado pelo ladrar conflituoso dos famintos cães
Pela debandada esbelta e rosa dos flamingos
E pela teimosia do retorno das cegonhas aos ninhos


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

O odor da causticidade

  Foto: José Lorvão   O aroma agonizante do vinagre lança dardos cortantes na pele desprevenida Na visão angustiante da carne das mãos, mirrada e carcomida pela acidez da indiferença Lutam as formigas por comida escondendo-se nas ervas daninhas invadindo palácios As portadas entreabertas, sem receio de assaltos pois que nada existe de riqueza E o abismo espreita sobre a escadaria de uma biblioteca inventada No deslizar de um crocodilo de boca aberta e esfomeada     Os pés descalços da princesa esmorecida sem vontade de se rebelar Provocam o colapso das veias na palpitação das unhas rasgadas Contra as vidraças ocultas e estilhaçadas do assalto iminente Esvoaçam os passos de fantasmas num piso de silencioso abandono Velando o pranto sufocante do inocente   A claustrofobia esgarça um espaço reduzido imitador do céu Com gradeamentos a ouro suspensos pela agonia E a esperança arcaica e carcomida de que a morte Será rápida como relâ...

Amanhã, hoje não!

  Foto José Lorvão Amanhã abraçamo-nos! Hoje não porque a derrocada que me prende ao chão incute-me no rosto um mar tenebroso incapaz de se acalmar Como se a fúria de várias tempestades criasse um furacão arrasador de gestos humanos Desmembrando rasgando cortando esmagando numa conjetura há muito anunciada Falam e não ouço pois na situação-limite decidem quem vive e quem morre num estalar de dedos Em surdina permaneço hirta qual estátua que parou no tempo E num espaço em colapso fico esperando que o musgo e os fungos me inundem em ferrugentos degredos Amanhã beijamo-nos! Hoje não porque este Abril trajado de rutura e afastamento sem rumo nem aprumo Fecha-se na robótica gritante e magro sustento Abril clausura que alteia sangrento o encerramento de uma inevitável sutura E quando a energia se esgota pela indiferença de quem nos encerra impiedosamente a porta Enterra-nos em cubos de gelo de amargura Amanhã dançaremos! Hoje não porque fazem...