Avançar para o conteúdo principal

Conforto patológico






Foto: José Lorvão

Há um conforto patológico no dinheiro
Quando passamos a estar ao serviço deste excremento
Em lugar de o utilizarmos como adubo
Nas hortas suspensas dos nossos sonhos
Pastando em terrenos contaminados a sensação de segurança obtida
Pela riqueza acumulada no entesoirar dos bens
Fruta apodrecida em esconderijo pela esperteza saloia consentida


É uma energia subtil de raiva e ódio
A que adquirimos na ilusão de controlo
Neste chumaço humano de poder e capital
Criando ranço nos tachos vazios de conteúdos
Apenas o vácuo de palração artificial
De quem escava galerias adormecidas
No tilintar monótono das moedas


A consolação enferma do perfilhar dos cofres
Guardadores de códigos e joias
Encerra a esquizofrenia dos milionários
Que assomam dentaduras artificiais de sorrisos embelezados
Imitando o perfecionismo paranoico
Na simetria dos bastardos
Agitando a luxúria mórbida no consumo do bem material apocalíptico
Como se com ele comprássemos a eternidade

E mesmo alcançando-a para que a quereríamos?
Seria o suplício perpétuo numa amolação vergonhosa
A preguiça sem sumo no desaprender lento do regozijo
O construir de fortificações suspensas nas costadas da ciência
Manipuladora de vírus e bactérias
Robóticas e translúcidas prisões em forma de esferas


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

Resistir

  Foto: José Lorvão A minha própria voz soa-me a desgaste Não sou eu! Apenas um molde das marés Um retrocesso mascarado num “déjà-vu” Embrenhei-me no fluído de imprecisão ondulatório E deixei-me conduzir pela corrente magnética Controladora de pânico por entre o enredo sufocante Num ambulatório cortante e desconcertado A caneta apresenta-se agora nestes dias de ausências Arremesso pesado estranho e ignorado   O azul claro do céu temporário tornou-se por instantes o meu alimento E as árvores! Sempre as árvores companheiras de partilha De trilhos sonoridades e gustações atenuando as dores do inferno Perante a dança ininterrupta dos pássaros E o sol que me aquece e aconchega neste final de novembro Põe a descoberto igualmente toda a beleza e fealdade No retorno ameaçador da pandemia com a invasão do Inverno   A mãe natureza assume a zanga e provoca ameaçadora Tempestades e inundações, explosões vulcânicas Lembrando ao convencido que ...

O odor da causticidade

  Foto: José Lorvão   O aroma agonizante do vinagre lança dardos cortantes na pele desprevenida Na visão angustiante da carne das mãos, mirrada e carcomida pela acidez da indiferença Lutam as formigas por comida escondendo-se nas ervas daninhas invadindo palácios As portadas entreabertas, sem receio de assaltos pois que nada existe de riqueza E o abismo espreita sobre a escadaria de uma biblioteca inventada No deslizar de um crocodilo de boca aberta e esfomeada     Os pés descalços da princesa esmorecida sem vontade de se rebelar Provocam o colapso das veias na palpitação das unhas rasgadas Contra as vidraças ocultas e estilhaçadas do assalto iminente Esvoaçam os passos de fantasmas num piso de silencioso abandono Velando o pranto sufocante do inocente   A claustrofobia esgarça um espaço reduzido imitador do céu Com gradeamentos a ouro suspensos pela agonia E a esperança arcaica e carcomida de que a morte Será rápida como relâ...