Avançar para o conteúdo principal

Buraco da agulha


 

A agulha cose o rasgão das calças e a estrela paciente recolhe-se

No horizonte oceânico revolvendo as ondas exaltadas do tempo

Perante o egocentrismo total da bicharada que se pavoneia alheada

 

As lentes dos óculos falham a perspetiva do enfiamento da linha

No alvoraçar da busca sequiosa das insígnias e pódios de honrarias

Impregnadas de dinheiro pegajoso passado por debaixo da mesa

Em cenas acesas de holofotes venenosos em rasgos de pornografias

 

É diminuto o buraco da agulha descerrando passagem para a abundância

Enquanto resvalo solitária no campo difuso do ostracismo

Perco-me nos dorsos cansados e na sinuosidade dos reflexos

Espera-me um terreno crepitante aberto à nudez trôpega dos loucos

Uma clareira infinita que me suga os membros e o cérebro esgotado  

Numa gélida insulação apartada de um rebanho em agonia de moucos

 

Como animal ferido esbarro contra paradoxos dando o último suspiro

Longe da corrupção humana pois nada tenho para vender

Padeço com o homem adormecido em narcóticos na calçada da cidade

Contemplando esmorecida o ser prostrado e desprezado

Inundado de suor lágrimas e álcool de cansaço ajoelhado

No calor abrasador e sufocante da face crua de Lisboa abandonada

Miserável indiferente e atafulhada vivendo de arruinadas impregnações

A cidade sofre como eu a metamorfose dos corpos pobre e desencantada

Onde o sufoco aperta nas ruas vazias e esquinas de neuroses e alucinações

 

 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inverno tenebroso

  Abraço o corpo enfraquecido pela turbulência dos lodaçais Que agoniza perante as chuvas que se evaporam em solos de mordaças e temporais Refugiando-se a mente num submundo sem escravatura Fervilhando a revolta perante a indiferença e chacota dos demais   O isolamento contorna cada curva do feminino Entontecido pelas cavalgaduras sem rosto Capta sementes de destruição Torrentes agressivas de desilusão E os sorrisos transformam-se em rasgos de bocas Onde dentes sem mácula se preparam para triturar e engolir as presas   A sofreguidão de mimos e bajulações é tanta que se escarra Para cima de quem se mantém afastado da mímica De adoração de mafarricos à solta Batendo asas como loucos mesmo sem poderem voar     Neste inverno as nuvens pousaram em campos contaminados Em pulmões doentes expostos ao inquinamento das viroses Em hepatites devoradoras de órgãos contaminados por sugadores de sangue Proliferaram nas chicotadas psico...

O odor da causticidade

  Foto: José Lorvão   O aroma agonizante do vinagre lança dardos cortantes na pele desprevenida Na visão angustiante da carne das mãos, mirrada e carcomida pela acidez da indiferença Lutam as formigas por comida escondendo-se nas ervas daninhas invadindo palácios As portadas entreabertas, sem receio de assaltos pois que nada existe de riqueza E o abismo espreita sobre a escadaria de uma biblioteca inventada No deslizar de um crocodilo de boca aberta e esfomeada     Os pés descalços da princesa esmorecida sem vontade de se rebelar Provocam o colapso das veias na palpitação das unhas rasgadas Contra as vidraças ocultas e estilhaçadas do assalto iminente Esvoaçam os passos de fantasmas num piso de silencioso abandono Velando o pranto sufocante do inocente   A claustrofobia esgarça um espaço reduzido imitador do céu Com gradeamentos a ouro suspensos pela agonia E a esperança arcaica e carcomida de que a morte Será rápida como relâ...

Amanhã, hoje não!

  Foto José Lorvão Amanhã abraçamo-nos! Hoje não porque a derrocada que me prende ao chão incute-me no rosto um mar tenebroso incapaz de se acalmar Como se a fúria de várias tempestades criasse um furacão arrasador de gestos humanos Desmembrando rasgando cortando esmagando numa conjetura há muito anunciada Falam e não ouço pois na situação-limite decidem quem vive e quem morre num estalar de dedos Em surdina permaneço hirta qual estátua que parou no tempo E num espaço em colapso fico esperando que o musgo e os fungos me inundem em ferrugentos degredos Amanhã beijamo-nos! Hoje não porque este Abril trajado de rutura e afastamento sem rumo nem aprumo Fecha-se na robótica gritante e magro sustento Abril clausura que alteia sangrento o encerramento de uma inevitável sutura E quando a energia se esgota pela indiferença de quem nos encerra impiedosamente a porta Enterra-nos em cubos de gelo de amargura Amanhã dançaremos! Hoje não porque fazem...