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Padecimento


Foto: José Lorvão


A estranheza do corpo que manobro confunde-me os sentidos
Compelindo o deglutir da saliva impregnada de palhaços malabaristas
Que se divertem jubilosos por entre os espaços em extenuação
Esses estupores adquiriram garras e caninos afiados como lâminas
Que rasgam os músculos e esperam risonhos que me contorça
Aguardando na fila em penitência para a entrada na cremação

Os bichanos olham-me fixamente como se adivinhassem
A vibração deturpada com que me congelo fintando a dor
Por entre arrepios de frio que me cortam em pedaços
Inventando circulações de física quântica
Abrindo e fechando portais de ecos melindrados
Com a incoerência traidora da espécie humana
E uma parte de mim se desprende e enreda por outros espaços

Como conseguimos sobreviver perante tamanha estupidez
Em alternativas esquizofrénicas pulando em andarilhos de louva-a-deus
Cegueira crua e dura convencidos da posse eterna do paraíso
Assinamos um pacto com a química em diabólico jogo estético
Camuflado por mecanismos de contenção e libertação que a ciência refez

A espera conduz-me a outras pistas acidentadas de múltiplas probabilidades
Pois ainda se pavoneia o silêncio nas ruas salteadas pelo desespero
Em rotações aleatórias infiltram-se enguias nos muros escorregadios
Onde a falta de sentido estende lençóis de líbido adiada
Arrasando a individualidade nas masmorras do horror
Em intermitências de incógnita por detrás das mascarilhas abafadiças
Perante um vírus em órbita sem ética empatia nem pudor

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