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Estado de calamidade



 
Foto: José Lorvão

Anunciam-se aos ventos catastróficos tempos espinhosos
Interioriza-se que a verdadeira praga
Aparece como bicho sem emoções humanas
Que dá pelo nome de industrialização capitalista
E como verme corrosivo vem-nos devorando o corpo e a alma
Ao longo das cintilações de extermínio do passado e presente
Que provocam flagelos cada vez mais mortíferos
Numa plataforma escorregadia indiferente ambiciosa e calculista

Triste maio que açaimas as bocas atabafando os prantos
Eliminando sorrisos e expressões faciais milenárias
Anulando a comunicação instintiva de quem capta um rosto por inteiro
Endurecendo a inquietude das ignorantes práticas sanitárias

O mundo atola-se na lama da precariedade da saúde pública
A nutrição harmoniosa aparece como utopia
Num povo sobrevivendo à míngua desdentado e contaminado
Pelas más condições de vida sem vigor e educação
Pois a ruína ecológica é fruto da insanidade
Da paranoia dos ditadores e dos trabalhadores em cega submissão

Crise pandémica refeita de múltiplos inimigos invisíveis
Em combate austero e cruel num esgrimir de forças desigual
Onde há um vírus que dá pelo nome de homem
Que se engole a si próprio se esquarteja e em sadomasoquismo se beija
Nas marés da delinquência e nos vulcões acesos em queda surreal

Raça parasita ferrando a próprio cérebro em metamorfose
Como lagartas repugnantes em lugares sombrios e carcomidos
Aguardando os voos das borboletas anunciadoras da descontaminação
Por céus límpidos de ar respirável com oceanos e continentes despoluídos


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